Com os púlpitos de Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema vazios, o primeiro debate presidencial de 2026 acabou funcionando como uma apresentação de propostas de três candidatos que ainda são pouco conhecidos de boa parte do eleitorado. Abaixo, o que Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) defenderam, tema a tema, no encontro realizado pela Band em 23 de agosto.
Renan Santos (Missão)
Segurança pública. Foi o eixo central de sua campanha no palco. Propôs decretar estado de defesa e usar operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em regiões dominadas pelo crime organizado; construir "superpresídios" com capacidade entre 300 mil e 500 mil vagas; e integrar governo federal e estados no enfrentamento às facções. Afirmou que estados omissos poderiam sofrer intervenção federal. "Essa será a guerra. Nós vamos enfrentar o crime organizado como nunca antes na história do nosso país", disse.
Tom e método. Renan foi o candidato mais agressivo da noite. Abriu sua primeira fala entre os púlpitos vazios chamando Lula e Flávio de "covardes" e, mais adiante, de "canalhas", associando o presidente ao mensalão e ao petrolão e o senador ao caso Vorcaro e à rachadinha. Antes do debate, exibiu fraldas com os nomes dos dois ausentes. A estratégia é declaradamente voltada à produção de conteúdo para redes sociais.
Educação. Questionado por Caiado sobre a competitividade dos jovens brasileiros, defendeu foco em resultados de aprendizagem e maior peso do ensino profissionalizante.
Ronaldo Caiado (PSD)
Economia. Chamado a responder sobre desequilíbrio fiscal, dívida pública e juros, o ex-governador de Goiás defendeu um "choque de credibilidade": contenção de despesas, reconstrução da confiança dos investidores e uma trajetória de queda dos juros com inflação convergindo para a faixa de 3% a 4%.
Violência contra a mulher. Foi o trecho mais detalhado de sua participação. Classificou o avanço do feminicídio como "grande chaga no país" e citou medidas adotadas em Goiás — tornozeleira eletrônica, botão do pânico, uso de inteligência artificial e integração das forças de segurança. Propôs endurecer a legislação: penas de 20 a 40 anos conforme o grau da violência, cumprimento de 90% da pena antes de qualquer benefício e confisco de bens do agressor em casos de feminicídio, com transferência do patrimônio à família da vítima.
Ataques. Cobrou de Flávio Bolsonaro explicações sobre os milhões pedidos a Daniel Vorcaro e citou as investigações envolvendo Lulinha. Resumiu a noite com a frase "o primeiro candidato tem o Dark Horse; e o Lula tem o Dark Lobby". Recusou, em tom bem-humorado, o convite de Cury para ser ministro da Segurança: disse que estaria na Presidência.
Augusto Cury (Avante)
Educação. O escritor e psiquiatra afirmou que a educação brasileira "enfrenta o caos" e precisa de uma revolução de método. Criticou o ensino "cartesiano" e "racionalista" e defendeu que professores estimulem os alunos a perguntar, pensar e participar. Citou a estimativa de 32 milhões de neurodivergentes no país e defendeu mudanças no ambiente escolar para ampliar a inclusão, além de apontar a "intoxicação digital" como obstáculo à aprendizagem.
Economia e empreendedorismo. Propôs financiar mais de 10 milhões de microempresas, dividir o BNDES em dois bancos — um para grandes empresas e outro para pequenas e microempresas — e criar escolas e agências de empreendedorismo em comunidades, favelas e escolas públicas.
Bolsa Família. Defendeu manter o programa, mas com ajustes de transição: quem conseguir emprego com carteira assinada ou abrir uma microempresa não perderia o benefício de imediato.
Polarização. Foi o candidato que mais insistiu no tema. Disse que o Brasil está "dramaticamente doente, polarizado, radicalizado" e chamou de "mentirosa" a ideia de que os brasileiros estejam divididos em apenas dois grupos. Confrontou diretamente o tom de Renan Santos: "você tem um nível de agressividade que me assombra. Tuas ideias podem ter fundamento, mas a agressividade asfixia a capacidade das pessoas terem as suas próprias opiniões".
Onde eles discordaram
Apesar de os três ocuparem o campo de centro-direita e direita, o debate expôs diferenças relevantes. Na segurança, Renan defende ruptura institucional (estado de defesa, intervenção federal) enquanto Caiado propõe endurecimento legislativo e gestão integrada, apoiado em sua experiência estadual. Na economia, Caiado fala a linguagem do ajuste fiscal clássico e Cury a do crédito produtivo e da inclusão de pequenos negócios. E, no tom, Cury se posicionou como antípoda declarado da estratégia de confronto de Renan — o embate entre os dois foi o momento mais tenso da noite.
Houve ainda divergência explícita sobre o fim da escala 6x1, tema que deve reaparecer nos próximos debates e que mobiliza especialmente o eleitorado assalariado mais jovem.
O que isso significa para a disputa
Nenhum dos três está próximo dos dois primeiros colocados. Somados, tinham cerca de 10% das intenções de voto às vésperas do debate. O que estava em jogo no palco da Band não era o primeiro turno, e sim a liderança do campo alternativo à polarização — posição que hoje se divide entre Caiado, Zema e Renan Santos. Quem consolidar esse espaço primeiro terá mais chance de aparecer nos debates seguintes com peso para forçar a presença dos líderes.