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Presidencial

Por que Lula e Flávio Bolsonaro faltaram ao debate — e o cálculo por trás da cadeira vazia

Quem lidera não debate. A ausência dos dois primeiros colocados no debate da Band não foi improviso: é uma estratégia clássica de quem tem mais a perder do que a ganhar em uma arena não controlada. Analisamos o cálculo dos dois lados.

Mário Valet · 24/08/2026 · 4 min de leitura

Quando o debate da Band terminou, no domingo 23 de agosto, os dois nomes mais comentados da noite não tinham dito uma única palavra no estúdio. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que lideram com folga as pesquisas registradas para a eleição de 2026, escolheram não comparecer ao primeiro confronto do calendário. A decisão custou críticas duras, mas obedece a uma lógica eleitoral que se repete desde 1994.

A regra não escrita do favorito

Em disputas majoritárias, o candidato que lidera com margem confortável tende a evitar debates no início da campanha. O raciocínio é simples: em uma arena não controlada, o líder oferece a todos os adversários um palco para atacá-lo e recebe pouco em troca. Cada minuto de exposição é um risco assimétrico — um deslize vira corte de vídeo, uma boa resposta apenas mantém o que já existe.

Foi assim com Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, com Lula em 2006 e 2010 no primeiro turno, e com Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 em parte dos encontros. Em 2026, o cálculo se repete, agora dos dois lados da polarização ao mesmo tempo — o que é a novidade real deste ciclo.

O cálculo de Lula

Presidente em exercício e primeiro colocado no agregado de pesquisas, Lula tem a estrutura de governo como palanque permanente. Não precisa de debate para ocupar espaço na imprensa: no mesmo horário do encontro da Band, foi ao ar pela Record uma entrevista de cerca de 20 minutos gravada à tarde, na qual respondeu sobre relação com os Estados Unidos, segurança pública, violência contra a mulher, economia e as investigações que envolvem seu filho Fábio Luís Lula da Silva.

A escolha é reveladora. Em vez do formato de confronto, com réplicas e tréplicas fora do seu controle, a campanha optou por uma entrevista gravada, com pauta previsível e edição conhecida. É o mesmo alcance de audiência com uma fração do risco.

O cálculo de Flávio Bolsonaro

Segundo colocado e a poucos pontos do presidente nas medições mais recentes, Flávio Bolsonaro adotou uma condição pública: só iria se Lula fosse. Ao amarrar sua presença à do adversário, o senador conseguiu três coisas de uma vez — evitou o debate, transferiu o custo político da ausência para o petista e ainda produziu conteúdo próprio. Durante a transmissão, publicou um vídeo nas redes em que afirmou não reconhecer como adversários os candidatos presentes: "o meu adversário é quem está no poder e está destruindo o Brasil".

Há também um cálculo defensivo. O senador tem enfrentado cobranças sobre os áudios em que pede recursos ao empresário Daniel Vorcaro, do banco Master, mencionando a produção do filme Dark Horse, além do antigo caso da rachadinha. Em um debate, esses temas viriam em pergunta direta, com tempo cronometrado para resposta. No vídeo gravado, não vêm. Ele nega irregularidades em ambos os casos.

Zema e o efeito cascata

A ausência dos dois líderes desencadeou um efeito cascata. Romeu Zema (Novo), que havia confirmado presença, desistiu no próprio domingo argumentando que a data do debate tinha sido remarcada de 16 para 23 de agosto justamente para viabilizar a ida de Lula — e que, sem ele, a mudança perdia o propósito. Augusto Cury chegou a anunciar desistência em protesto antes de voltar atrás.

O resultado foi um palco com três candidatos que somam cerca de 10% das intenções de voto. Quando o debate deixa de reunir os favoritos, ele deixa de funcionar como instrumento de comparação para o eleitor — e passa a funcionar como vitrine para quem precisa de projeção.

Qual é o custo real da cadeira vazia

Historicamente, o custo é baixo no curto prazo e cresce conforme a eleição se aproxima. Faltar ao primeiro debate de agosto, quando boa parte do eleitorado ainda não prestou atenção na campanha, é diferente de faltar ao debate de véspera de votação, quando o eleitor indeciso está decidindo. A pressão sobre Lula e Flávio deve aumentar em setembro, especialmente se os institutos registrarem estreitamento da margem entre os dois.

Há ainda um custo indireto: ao não comparecer, os dois entregam aos adversários o monopólio da narrativa por 90 minutos em rede nacional. Foi exatamente o que aconteceu — Caiado, Renan Santos e Cury passaram boa parte do tempo falando sobre corrupção, e não havia ninguém no palco para responder.

O que observar daqui para frente

Três indicadores merecem acompanhamento até o próximo debate: se a rejeição a Lula e Flávio se mexe nas pesquisas registradas; se algum dos três presentes converte exposição em intenção de voto; e se as emissoras conseguem negociar um formato que traga os líderes ao palco. Até lá, a cadeira vazia continua sendo a imagem mais eloquente da campanha de 2026.

Você concorda com a decisão de faltar ao debate? A enquete do Data Povo, que é uma consulta popular sem valor científico, está aberta para registrar sua opinião.

Fontes